Periodicamente irei colocar aqui alguns excertos de guiões que escrevi. Por razões óbvias encontram-se todos devidamente registados e protegidos.
Título: "Hannah" ©
Formato: Longa-Metragem
Género: Terror
INT. DIVISÃO - NOITE
Uma divisão escura, cheia de arcas frigoríficas.
ANA
Nome?
WATTEAU
Antoine Watteau. Um escravo.
Watteau faz uma vénia.
ANA
Também foi ele que te fez assim?
WATTEAU
Ele?
Watteau ri.
WATTEAU (CONT’D)
Não, não. Oh, quem me dera. Foi o meu professor de piano. Paris, 1742. Um sujeitinho aparentemente sem piada alguma. Mas como as aparências iludem! Lamentavelmente não voltei a tocar desde então.
ANA
Vocês são... vampiros?
WATTEAU
Certo. E se não estou enganado, agora também você o é. Como se já não fossemos suficientes... e por favor, não comece a balbuciar algo do tipo "mas... não... é... po... ssí... vel...", porque se acha que não é possível, experimente sair à rua de dia. Terá uma bela surpresa.
Watteau senta-se em cima de uma das arcas.
WATTEAU
Ele transformou-a e desapareceu?
Ana acena afirmativamente.
WATTEAU (CONT’D)
Que rude.
ANA
Diz-me onde é que ele está.
WATTEAU
Eu já disse que não sei onde é que ele está. Mas mesmo que soubesse, o que tencionaria fazer? Bater-lhe? Chamar-lhe nomes?
ANA
Matá-lo.
WATTEAU
Ai sim? Como?
ANA
Ainda não sei. Diz-me tu.
WATTEAU
Não, não, não. Acho que ele ficaria aborrecido comigo se o fizesse.
ANA
És o servo dele?
WATTEAU
Amigo. E agora, se já não tem mais dúvida nenhuma, vou voltar à conversa com a minha ceia.
ANA
Quantos de vocês é que existem?
WATTEAU
No mundo?
ANA
Sim.
WATTEAU
Bom, nós não temos propriamente um censos, portanto não lhe poderei dar um número exacto. Mas diria que por cada 16 humanos existe um vampiro. Portanto, como pode perceber, a comida não abunda.
ANA
Têm algum mestre? Alguém de quem recebem ordens??
WATTEAU
Não. É cada um por si. E se está a pensar em personagens tipo Drácula, esqueça, não andamos por aí em castelos tenebrosos, com penteados estranhíssimos e capa a arrastar pelo chão. Não nos transformamos em
morcegos. Não nos transformamos em nevoeiro. Não dormimos em caixões. E, muito definitivamente, bebemos vinho. Aquele Bram era um tipo cheio de piada.
ANA
Stoker?
WATTEAU
Claro. Um tremendo exibicionista.
ANA
Bram Stoker era um vampiro?
WATTEAU
Até ter escrito aquele disparate. Não soube ficar calado. Os outros... não gostaram. Morreu. Nós apreciamos a nossa... clandestinidade. É bom que pensem em nós apenas como folclore e material para vender filmes. Bem! Toda esta conversa deu-me fome!
Watteau abre uma das arcas e retira um saco do seu interior. O seu conteúdo: sangue.
Watteau abre-o e despeja-o pela garganta abaixo. Pára, e estende o braço na direcção de Ana.
A sua boca está cheia de sangue.
WATTEAU
Peço desculpa. Servida?
Ana recusa.
WATTEAU
Mais cedo ou mais tarde terá de fazê-lo. Para quê adiar? O sangue daqui é maravilhoso.
ANA
Não tenho fome.
WATTEAU
Terá.
ANA
Que sítio é este? Algum clube de vampiros?
WATTEAU
Um sítio onde estamos entre os nossos.
ANA
Então ele costuma vir cá, certo?
WATTEAU
Gabriel?
ANA
Sim.
WATTEAU
De vez em quando, sim.
ANA
Não há maneira de fazer com que isto... desapareça?
WATTEAU
Claro que sim. Morrendo. Acaba por se habituar. Acredite. E espero que esta sua nova... condição... seja mantida em segredo. Nada de ir telefonar às amigas a contar a novidade.
ANA
Voltaremos a ver-nos.
Ana abandona a sala.
WATTEAU
Espero bem que sim.
FIM DE CENA